A endocrinologia da diabetes mellitus de 2026 não é a mesma de cinco anos atrás. A entrada dos agonistas do receptor GLP-1 e dos agonistas duais GLP-1/GIP transformou a primeira linha do diabetes tipo 2 (DM2) e abriu nicho terapêutico em obesidade. O tirzepatide (Mounjaro/Zepbound da Lilly), agonista dual GLP-1 + GIP, demonstrou no estudo SURPASS redução média de HbA1c superior a 2% e perda ponderal acima de 20% em obesidade. O semaglutide (Wegovy/Ozempic da Novo Nordisk), agonista GLP-1, manteve participação relevante em DM2 e abriu indicação cardiovascular nos estudos SUSTAIN e SELECT. O liraglutide (Saxenda) sustenta espaço em pediatria.
A frente dos inibidores de SGLT2 consolidou-se com canagliflozina (CANVAS, CREDENCE), empagliflozina (EMPA-REG OUTCOME, EMPEROR-Reduced/Preserved) e dapagliflozina (DAPA-HF, DAPA-CKD), cobrindo simultaneamente DM2, insuficiência cardíaca e doença renal crônica.
Em paralelo, a tecnologia de monitoramento e administração de insulina deu salto qualitativo. O monitoramento contínuo de glicose (CGM) — Dexcom G7, FreeStyle Libre 3 da Abbott, Medtronic Guardian 4 — tornou-se padrão em DM1 e crescente em DM2 insulino-tratado. As bombas de insulina — Tandem t:slim X2 Control-IQ, Omnipod 5, Medtronic 780G — operam em modo híbrido closed-loop (HCL), com algoritmo automático que ajusta infusão basal e bolus de correção em tempo real a partir do dado CGM.
Cada categoria reescreve o plano de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde (PGRSS) do serviço de endocrinologia.
CGM e bomba closed-loop: o resíduo doméstico que vira hospitalar
O paciente DM1 em uso de Dexcom G7 troca o sensor a cada 10 dias, gerando — anualmente — 36 sensores descartados com componente eletrônico (transmissor reutilizável ou descartável dependendo do modelo) e adesivo. O paciente em uso de Omnipod 5 troca o pod a cada 3 dias, gerando aproximadamente 120 pods/ano com reservatório de insulina, cânula e adesivo. O paciente em uso de Tandem t:slim com infusion set troca o set a cada 2-3 dias com cânula, tubulação e reservatório.
Esse resíduo é classificado pela RDC 222/2018 como Grupo E (perfurocortante) com componente eletrônico quando o sensor ou bomba é descartado em ambiente hospitalar (consulta, internação, evento adverso). Em ambiente domiciliar, segue logística reversa do fabricante (Abbott Diabetes Care, Dexcom, Insulet, Tandem, Medtronic). O hospital que recebe paciente DM1 internado precisa ter coletor específico para tecnologia diabética e protocolo de comunicação com fabricante para devolução de bomba e sensor após alta.
Tabela: tecnologia diabética 2026 e PGRSS
| Tecnologia | Indicação | Resíduo gerado | Classificação RDC 222/2018 |
|---|---|---|---|
| Tirzepatide (Mounjaro/Zepbound) | DM2 + obesidade | Caneta SC + agulha + EPI | A1 + B + E |
| Semaglutide (Wegovy/Ozempic) | DM2 + obesidade + CV | Caneta SC + agulha + EPI | A1 + B + E |
| Liraglutide (Saxenda) | DM2 + obesidade pediátrica | Caneta SC + agulha + EPI | A1 + B + E |
| SGLT2 (canagli/empa/dapa) | DM2 + IC + DRC | Comprimidos vencidos/partidos | B (medicamento) |
| Insulina basal/prandial | DM1 + DM2 insulino | Caneta + ampola + agulha + EPI | A1 + B + E |
| CGM (Dexcom G7 / Libre 3) | DM1 + DM2 insulino | Sensor + adesivo + transmissor | E (perfurocortante) + eletrônico |
| Bomba (Tandem / Omnipod / Medtronic) | DM1 closed-loop | Pod + reservatório + cânula + bateria | E + B (insulina) + eletrônico |
A leitura cruzada da tabela mostra que o serviço endocrinológico opera, ao longo da jornada do mesmo paciente, terapia oral (B isolado), injetável SC (A1+B+E), dispositivo de monitoramento e infusão (E + eletrônico). O fluxo é longitudinal e exige protocolo escrito específico para cada categoria.
A endocrinologia ambulatorial como ponto crítico
A maior parte da operação endocrinológica acontece em regime ambulatorial — consulta, ajuste de bomba, troca de sensor, prescrição de injetável. O serviço precisa ter coletor específico para agulhas de caneta SC (Grupo E perfurocortante), canetas vencidas (Grupo B medicamento injetável), sensor descartado em consulta (Grupo E) e embalagens secundárias (Grupo D). Em centros de referência com mais de 500 pacientes em CGM/bomba, o volume mensal de resíduo de tecnologia diabética é significativo e exige contrato específico de coleta.
Para o serviço que estrutura essa frente, a Seven Resíduos atua na interface entre endocrinologia avançada e PGRSS auditável, com coleta especializada para resíduos hospitalares e ambulatoriais calibrada para serviços que rodam tirzepatide, CGM e bomba closed-loop em escala.
Três perfis: como diferentes serviços absorvem o algoritmo 2026
Centro endocrinológico de referência (mais de 500 DM1 em CGM/bomba): opera todas as tecnologias, tem programa de educação em diabetes (CDE — Certified Diabetes Educator), mentor técnico de bomba e PGRSS dedicado para tecnologia diabética. Articulação com fabricante para logística reversa.
Hospital geral com serviço de endocrinologia (50-200 DM1 acompanhados): opera CGM, bomba e injetáveis. PGRSS cobre o fluxo padrão, mas falta protocolo específico para devolução de bomba ao fabricante.
Clínica endocrinológica ambulatorial: prescrição e seguimento. PGRSS limitado a Grupo A1+B+E ambulatorial, com contrato semanal de coleta.
Três erros recorrentes em PGRSS endocrinológico avançado
- Tratar caneta SC vencida como medicamento oral comum. Caneta de tirzepatide, semaglutide ou insulina vencida segue Grupo B injetável com fluxo específico — não descarte ambulatorial padrão.
- Não articular logística reversa de bomba com fabricante. A bomba descartada (final de vida útil, troca de modelo) deve voltar ao fabricante para reprocessamento ou descarte controlado, não para o fluxo hospitalar comum.
- Confundir sensor CGM com perfurocortante padrão. O sensor tem componente eletrônico (chip, antena) que exige descarte de eletrônico (Lei 12.305/2010 PNRS), além do perfurocortante. Coletor errado é descumprimento.
O horizonte 2027: pâncreas artificial e terapia gênica DM1
A próxima onda inclui pâncreas artificial fully closed-loop sem necessidade de bolus pré-refeição, células beta encapsuladas (Vertex VX-880, Sigilon) com primeiros pacientes DM1 sem necessidade de insulina exógena, e terapia gênica AAV-mediated para deficiências enzimáticas pancreáticas. Cada categoria nova exige revisão do PGRSS antes do primeiro paciente.
Para aprofundar, leia o post sobre nefrologia avançada e o artigo sobre cardiologia avançada com TAVI, além do panorama geral de PGRSS hospitalar. Como referência, a RDC 222/2018 da ANVISA e o estudo SURPASS publicado no NEJM são leitura obrigatória.
Pronto para alinhar seu PGRSS à endocrinologia digital de 2026? Fale com a Seven Resíduos e estruture um plano que acompanhe seus protocolos.