O acidente percutâneo é a emergência número 1 em clínica
Em todo consultório, clínica ou laboratório que manipule perfurocortante (agulha, lâmina, lima, broca, lanceta), acidente percutâneo é o risco mais comum e o mais documentado pela NR 32. Com a equipe atendendo paciente em movimento, com EPI imperfeito, com bandeja superlotada, acontece — e quando acontece, a clínica que tem protocolo escrito age em 5 minutos, a que não tem perde 30 minutos discutindo o que fazer e o trabalhador fica desprotegido.
Esse texto é o protocolo de bolso para o gestor de clínica + o roteiro de 24-48 horas seguintes, alinhado com NR 32, RDC 222 e PCMSO.
Os 6 passos imediatos — minutos 0 a 60
Passo 1 (minuto 0-2) — controle do ferimento
- Lavar abundantemente com água e sabão o ferimento
- NÃO espremer o local (aumenta a inoculação)
- NÃO usar antisséptico forte (álcool, povidona em concentração) — pode aumentar trauma
- Cobrir com gaze limpa após lavagem
Passo 2 (minuto 2-5) — comunicação interna
- Trabalhador comunica RT do plantão ou supervisor imediatamente
- Identifica paciente-fonte (nome, contato)
- Documenta circunstâncias (procedimento, tipo de agulha/lâmina, exposição visível a sangue)
Passo 3 (minuto 5-15) — referência sorológica do paciente-fonte
Se possível e com consentimento do paciente-fonte:
- Sorologia do paciente-fonte para HIV, hepatite B (HBsAg) e hepatite C (anti-HCV)
- Resultado em até 1-4 horas (rápido) ou em laboratório de referência
- O paciente-fonte não é obrigado a fazer sorologia, mas a clínica deve oferecer e documentar a recusa se for o caso
Passo 4 (minuto 15-60) — UPA + profilaxia pós-exposição (PEP)
Trabalhador é encaminhado para UPA com referência sorológica:
- Avaliação de risco pelo médico (paciente-fonte HIV+? Tipo de exposição? Quantidade de sangue?)
- PEP HIV se aplicável: 28 dias de antirretroviral, idealmente iniciado em até 2 horas, no máximo 72 horas
- Vacina hepatite B se trabalhador não imunizado (anti-HBs < 10 mUI/mL)
- Imunoglobulina hepatite B se exposição alta + não imunizado
- Hepatite C: não há PEP — apenas acompanhamento sorológico
- Tétano: reforço se necessário
Passo 5 (até 24h) — CAT obrigatório
A CAT (Comunicação de Acidente do Trabalho) deve ser emitida em até 24h:
- Pelo empregador (ou trabalhador, sindicato, médico assistente, autoridade pública)
- Mesmo que não haja afastamento — toda exposição percutânea com risco biológico gera CAT
- Documenta o fato gerador trabalhista — protege trabalhador e empregador
- Multa por não emissão: R$ 670-2.500 (MTE)
Passo 6 (em 1-2 dias) — registro e revisão
- Documenta internamente o ocorrido (livro de ocorrências ou registro digital)
- Revisa PGRSS e plano de capacitação — o que falhou? O que evita repetir?
- Atualiza, se aplicável, fluxo de operação (caixa amarela mais perto, EPI revisado, treinamento)
O acompanhamento sorológico nos 6 meses seguintes
| Sorologia | Intervalo | O que verifica |
|---|---|---|
| Anti-HIV | 0, 6 semanas, 12 semanas, 6 meses | Soroconversão por HIV |
| Anti-HBs (se vacinado) | 1-2 meses pós-exposição | Resposta vacinal |
| HBsAg | 0, 6 semanas, 6 meses | Infecção por hepatite B |
| Anti-HCV | 0, 6 semanas, 12 semanas, 6 meses | Soroconversão hepatite C |
| Carga viral HCV (se trabalhador anti-HCV positivar) | Conforme infectologista | — |
Custo do acompanhamento: geralmente coberto pelo PCMSO da empresa (responsabilidade do empregador). Alguns convênios médicos cobrem; SUS cobre integralmente.
A documentação que protege a clínica
Em caso de questionamento trabalhista ou auditoria do MTE depois do acidente, a clínica deve apresentar:
- CAT emitida no prazo
- Protocolo de pré-exposição (PCMSO + capacitação) documentado
- Comprovante de fornecimento de EPI ao trabalhador
- Comprovante de vacinação ocupacional atualizada
- Procedimento operacional padrão (POP) de manuseio do perfurocortante
- Registro do acidente com fotos (se aplicável), nome do paciente-fonte, circunstância
- Acompanhamento médico completo no PCMSO (todos os exames sorológicos do trabalhador)
Sem essa documentação, o ônus probatório vira do empregador em qualquer ação trabalhista — empregador paga indenização.
A prevenção — 5 ações que reduzem em 70% a incidência
1. Caixa amarela na bancada (não no armário)
2. Capacitação semestral com simulação prática
3. Não recapar agulha após uso (regra de ouro NR 32)
4. Caixa amarela trocada antes de 80% da capacidade
5. EPI completo e ajustado ao tamanho do trabalhador
Estudo USP/SP 2024: clínicas que aplicam essas 5 ações têm 70% menos acidentes percutâneos por 100 funcionários/ano.
Conclusão — o protocolo escrito é o que faz a diferença
A diferença entre a clínica que sobrevive bem ao acidente e a que paga R$ 30.000 em indenização trabalhista é um protocolo escrito de 1 página afixado no abrigo + treinamento de 30 min anual. Custo: zero. Valor: incalculável.
A Seven Resíduos Saúde fornece, no contrato anual, modelo de protocolo de acidente percutâneo afixável no abrigo e na sala clínica + check-list para revisão pós-incidente. Solicite a proposta.