A endodontia é o “químico” da odontologia
Em volume bruto, a endodontia gera menos lixo que a implantodontia. Em toxicidade, é o oposto: a endodontia é a especialidade odontológica que mais gera Grupo B (químico) — por causa do mercúrio das restaurações antigas removidas, do hipoclorito de sódio usado em irrigação, do revelador e fixador de raio-X, e da eugenol e outros materiais de obturação.
Soma-se o alto consumo de limas endodônticas (um único tratamento de canal pode usar 4-8 limas que viram Grupo E ao final), das agulhas de irrigação que são especialmente longas e finas (acidente percutâneo perigoso), e a complexidade aumenta.
Esse texto traz a tabela completa de descarte em endodontia, com atenção especial ao mercúrio — o resíduo mais subestimado e mais multado em fiscalizações sanitárias da especialidade.
A classificação correta — resíduos da endodontia em 7 categorias
| Resíduo | Grupo (RDC 222/2018) | Acondicionamento | Observação |
|---|---|---|---|
| Lima endodôntica (manual ou rotatória usada) | Grupo E (perfurocortante) | Caixa amarela rígida | Sempre, mesmo com 1 mm de comprimento |
| Agulha de irrigação (Navi-Tip, Endo-Eze, etc.) | Grupo E | Caixa amarela | Agulhas longas — risco percutâneo alto |
| Cone de papel absorvente usado | Grupo A | Saco branco | Contato com tecido pulpar e sangue |
| Cone de guta-percha cortado/excedente | Grupo A se contato com canal | Saco branco | — |
| Restauração de amálgama removida (mercúrio + prata + cobre) | Grupo B (químico perigoso) | Recipiente rígido específico hermético | NUNCA na pia, NUNCA no lixo comum |
| Hipoclorito de sódio (descarte de sobra de irrigação) | Grupo B | Bombona específica | Em alguns destinos pode ser neutralizado e descartado em rede sanitária |
| EDTA (solução quelante) | Grupo B | Bombona específica | — |
| Eugenol (cimento obturador) — sobra | Grupo B | Recipiente fechado | — |
| Revelador e fixador de raio-X | Grupo B (químico) | Bombona dedicada | Não pode ir para esgoto |
| Filme radiográfico revelado, descartado | Grupo D após dessensibilização química | Lixo comum (após descontaminação) | Maioria de consultórios faz raio-X digital — esse problema diminui |
| Película de raio-X virgem fora da validade | Grupo D | Lixo comum | — |
| Algodão, gaze com sangue | Grupo A | Saco branco | — |
| Cabo de bisturi descartável usado | Grupo E | Caixa amarela | — |
| Anestésico vencido | Grupo B | Bombona | Logística reversa do fornecedor |
O mercúrio do amálgama — o resíduo mais punido
Em endodontia, é comum remover restaurações antigas de amálgama ao acessar o canal. O resíduo gerado:
- Pequenos pedaços de amálgama (mistura sólida de mercúrio com prata, estanho, cobre, zinco)
- Pó de amálgama (gerado pela fresagem com broca)
- Resíduo aspirado pela cânula (mistura água + saliva + amálgama particulado)
Tudo isso é Grupo B perigoso pelo mercúrio (Hg). Mercúrio é metal pesado tóxico, bioacumulativo, com legislação ambiental severa.
Acondicionamento correto
- Pote rígido hermético com solução de tiossulfato de sódio (estabiliza o mercúrio)
- Identificação: “RESÍDUO DE AMÁLGAMA — MERCÚRIO — Grupo B perigoso”
- Localização: sala clínica, longe de calor e luz solar
- Coleta: pela coletora de RSS, com bombona específica e MTR de Grupo B perigoso
- Destinação: incineração com captação de mercúrio em destinador classe IIA licenciado
O sistema de captação na cuspideira
Em consultórios endodônticos novos, a regulamentação tende a exigir separadores de amálgama na linha da cuspideira — equipamento que captura partículas de amálgama antes que cheguem ao esgoto. Em SP capital, exigido em estabelecimentos novos desde 2023; equipamentos legados em adequação progressiva.
Custo do separador: R$ 800-3.500 uma vez. Vida útil: 2-5 anos.
A multa do mercúrio
Mercúrio jogado na pia ou no lixo comum não passa despercebido em fiscalização ambiental:
- Multa CETESB por descarte irregular de Grupo B perigoso: R$ 5.000-50.000
- Auto de infração ambiental complementar (Lei 9.605/98 — crimes ambientais)
- Risco penal em caso reincidente (raro, mas possível)
O revelador e o fixador de raio-X
Cada vez menos relevante por causa do raio-X digital, mas ainda comum em consultórios estabelecidos. O resíduo:
- Revelador usado: contém prata em forma reduzida (toxidade média)
- Fixador usado: contém prata e tiosulfato (toxidade média)
Nunca descartar em esgoto — tóxico e regulado pela CONAMA 357/2005 e legislações estaduais.
Coleta: pela coletora de RSS, bombona de Grupo B, com MTR.
O hipoclorito de sódio — irrigação endodôntica
NaClO em concentrações 0,5% a 5,25% é o irrigador padrão em endodontia. Sobra após o procedimento:
- Em pequenas quantidades (frasco de 100-500 mL) e diluição 0,5-1%, alguns destinos aceitam descarte em rede sanitária após neutralização
- Em maiores volumes ou alta concentração, bombona de Grupo B
Verifique em seu PGRSS qual o procedimento aceito pelo destinador da sua coletora.
Estimativa de geração mensal — consultório de endodontia
Para endodontia 1 cadeira, 30-40 tratamentos/mês (mix simples + retratamentos):
| Grupo | Volume estimado | Recipiente típico mensal |
|---|---|---|
| Grupo A (biológico) | 6-9 kg | 2-3 sacos brancos 30 L |
| Grupo E (perfurocortante — limas, agulhas) | 1,5-3 kg | 2 caixas amarelas 7 L (uma cada 4 semanas) |
| Grupo B (químico — amálgama, revelador, hipoclorito) | 2-5 kg | 1 bombona 5-20 L (troca trimestral ou semestral) |
| Grupo D (comum, embalagens) | 10-20 kg | 4-6 sacos pretos 30 L (coleta urbana) |
| Total RSS contratado | 9,5-17 kg | — |
Custo médio de coleta para esse perfil em SP capital (2026): R$ 200-360/mês (frequência geralmente semanal ou quinzenal pela presença de Grupo B).
Os 6 pontos críticos da segregação na endodontia
1. Mercúrio do amálgama — pote dedicado, sem exceção
Não use o saco branco “porque é só um pedacinho”. Pote rígido hermético com tiossulfato, sempre.
2. Revelador/fixador — bombona, não pia
Mesmo que pareça “água” — não é. Bombona de Grupo B.
3. Lima quebrada dentro do canal
Se a lima quebrou e ficou no canal do paciente, fica com o paciente (procedimentos para retirada — caso do dentista). Não vira resíduo do consultório nesse caso.
4. Cone de guta-percha rejeitado da embalagem
Cone de guta-percha que saiu da embalagem mas não tocou paciente: Grupo D (lixo comum). Tocou? Saco branco.
5. Agulha de irrigação — atenção ao tamanho
Agulhas endodônticas são mais longas que as de anestesia. Caixa amarela com profundidade adequada para acomodar (cuidado se a caixa for pequena demais).
6. Aspiração contaminada — não esgotar diretamente
Líquido aspirado durante endodontia (saliva + sangue + hipoclorito + amálgama) não vai direto para a rede de esgoto. Em consultórios novos, separador de amálgama captura particulado. Em consultórios sem separador, há buraco regulatório que precisa ser endereçado.
Capacitação específica — equipe da endodontia
Foco em manuseio de químicos:
1. Como armazenar o pote de amálgama com tiossulfato
2. Como descartar revelador/fixador na bombona
3. Acidente percutâneo com lima endodôntica
4. Acidente com hipoclorito (queimadura química na pele/olho)
5. Importância da bombona de Grupo B identificada
Capacitação semestral, ata em PGRSS.
Conclusão — o “químico” pede mais atenção que o “biológico”
A endodontia é a única especialidade odontológica que pode multar pelo lado ambiental (CETESB, IBAMA, Polícia Ambiental) — não só pelo lado sanitário (VISA). Mercúrio, revelador e hipoclorito se descartados errado geram autos cuja faixa começa em R$ 5.000 e pode chegar em casos graves a dezenas de milhares.
A boa notícia: com pote dedicado para amálgama (R$ 80) + bombona Grupo B (R$ 50) + caixa amarela (incluída), o consultório está em conformidade ambiental por menos de R$ 200 de investimento inicial. Mais barato que uma consulta de retratamento.
A Seven Resíduos Saúde tem plano específico para endodontia em SP capital e ABC: bombona Grupo B com troca trimestral inclusa, pote para amálgama fornecido, PGRSS-modelo focado em químicos, capacitação semestral. Solicite a proposta de endodontia.