“Quando eu comecei, agulha ia no lixo da rua. Hoje?”
Profissional formado antes de 2004 trabalhou parte da carreira sem RDC sobre RSS. Profissional formado entre 2004 e 2018 viu a RDC 306 consolidar a estrutura. Pós-2018, RDC 222. Cada geração tem referência cultural diferente sobre o que é “normal” no descarte de RSS.
Dentistas com 30+ anos de carreira contam histórias sobre agulha no lixo doméstico, revelador na pia, dente extraído entregue ao paciente sem qualquer documentação. Não é falta de ética — era prática aceita na época.
A transição cultural para o profissional sênior que opera hoje pede respeito + atualização. Esse texto fala dessa transição.
Os 4 perfis culturais que aparecem em clínica
Perfil 1 — “Antes não era assim, mas adapto”
Profissional sênior que reconhece a mudança, estuda a 222 quando precisa, e adapta a operação sem resistência:
- Atualiza PGRSS quando o RT contratado pede
- Aceita capacitação anual mesmo achando que “já sabe tudo”
- Acompanha mudanças via revistas de classe
- Conformidade plena com mínima fricção
Perfil 2 — “Sigo a regra mas não me peçam para entender”
Profissional sênior que delega tudo:
- Contrata coletora “que cuida disso”
- Assina PGRSS sem ler
- Não participa de capacitação
- Conformidade aparente mas pode ter lacunas em vistoria
Perfil 3 — “Resisto até a multa chegar”
Profissional sênior que questiona a necessidade:
- “PGRSS é burocracia”
- “Sempre fizemos assim e nunca tivemos problema”
- Resiste a PCMSO atualizado
- Risco alto — geralmente é multado em 2-5 anos
Perfil 4 — “Mudei depois da multa”
Profissional sênior que viveu autuação e mudou postura:
- Frequentemente um dos mais rigorosos depois
- Compartilha experiência com colegas
- Modelo positivo mas após custo aprendido
Os atalhos antigos que ainda persistem (e suas justificativas)
Atalho 1 — “Devolver dente extraído sem documentação”
Era: prática rotineira pré-2004.
Hoje: RDC 222 considera Grupo A1 — devolução exige declaração escrita.
Custo de não documentar: raro de ser auditado, mas multa em vistoria especializada.
Atalho 2 — “Levar lixo de plantão pra casa para ‘não acumular'”
Era: comum em consultório autônomo pequeno.
Hoje: caracteriza transporte irregular de RSS — multa.
Por que persiste: comodidade percebida, baixo custo aparente.
Atalho 3 — “Ignorar MTR para ‘volume pequeno'”
Era: algumas vezes coletora não emitia.
Hoje: MTR é obrigatório, gerador é responsável.
Por que persiste: comunicação inadequada da coletora ao cliente.
Atalho 4 — “Misturar revelador/fixador na pia”
Era: não havia consciência de prata + tóxicos.
Hoje: descumprimento ambiental sério.
Mitigação: migração para raio-X digital tem reduzido drasticamente.
Atalho 5 — “Guardar EPI velho para ‘usar de novo'”
Era: economia justificada.
Hoje: NR 32 obriga reposição pelo empregador.
Custo: acidente percutâneo + multa MTE + ação trabalhista.
A transição sem dor — 5 conversas-chave com colega sênior
1. “Não é mais assim. E isso protege você.”
Mostra que a regulação protege o profissional (CRM/CRO/vida pessoal) tanto quanto o paciente. Argumento de autopreservação funciona melhor que moralismo.
2. “Custa pouco fazer certo.”
Lista de custos reais (R$ 90-180/mês de coleta + R$ 200/ano de capacitação) versus multas reais (R$ 2.000-30.000+). Argumento financeiro raramente falha.
3. “A equipe já mudou. Falta você.”
Auxiliares formadas pós-2018 sabem dos protocolos. Quando o sênior resiste, a equipe sente desconforto entre fazer certo e seguir o chefe. Argumento de liderança.
4. “Aqui estão os 5 pontos onde você pode estar exposto.”
Diagnóstico personalizado (PGRSS antigo? coletora não-licenciada? MTR ausente?). Argumento de ação concreta.
5. “Faço junto com você por 30 dias.”
Acompanhar o sênior na primeira revisão completa do PGRSS + primeira capacitação documentada + primeiro CDF arquivado. Argumento de suporte.
Conclusão — cultura muda em pessoas, não em normas
A norma muda em 2 dias (publicação no DOU). A cultura muda em 2-5 anos (após casos reais e troca geracional). Profissional sênior que resiste não é vilão — é produto de uma cultura anterior que precisa de transição respeitosa.
O caminho prático: encontrar o perfil (1, 2, 3 ou 4), calibrar a conversa, oferecer suporte concreto. Custo: 30 dias de acompanhamento. Valor: anos de operação tranquila sem fricção entre gerações.
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