Funcionário furou-se com agulha durante troca do saco amarelo perfurocortante. Cenário comum, momento crítico — a clínica tem 2 horas para iniciar protocolo adequado. O atraso pode comprometer profilaxia pós-exposição (PEP) e gerar processo trabalhista futuro. O Ministério da Saúde tem protocolo nacional para esse cenário.
Os 5 passos imediatos (<2 horas)
1. Lavagem imediata
- Lavar abundantemente com água e sabão.
- Não usar antisséptico irritante (álcool 70% pode aumentar lesão).
- Não esfregar nem espremer o local.
2. Identificar a fonte
- Qual paciente gerou o resíduo?
- Saber sorologia do paciente (HIV, HBV, HCV) — paciente fonte autoriza testagem.
- Se desconhecida ou impossível identificar: tratar como fonte HIV+ presumida até prova em contrário.
3. Coleta inicial do funcionário (zero hora)
- Sorologia HIV.
- HBsAg e Anti-HBc.
- Anti-HCV.
- Hemograma e função hepática base.
4. Avaliação para iniciar PEP HIV
Se fonte HIV+ ou desconhecida → iniciar PEP (truvada + dolutegravir, 28 dias). Em 2 horas é a janela ideal — pode até 72 horas mas eficácia cai.
5. Vacinação Hepatite B
Se funcionário não está vacinado ou vacinação incompleta → iniciar/completar esquema HBV + imunoglobulina (HBIG) se fonte HBsAg+.
Acompanhamento subsequente
| Marco | Exame |
|---|---|
| 6 semanas | HIV (teste rápido) |
| 12 semanas | HIV + HCV |
| 6 meses | HIV + HCV |
PEP completa 28 dias. HIV testado até 6 meses para confirmar não soroconversão.
Documentação obrigatória
CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)
Emissão obrigatória em 24 horas. Falta = multa empregador + risco previdenciário.
Registro interno
- Ficha de acidente.
- Investigação causa raiz (saco mal vedado, caixa amarela cheia, EPI inadequado).
- Ação corretiva.
Notificação SINAN
Dependendo da gravidade e fonte, notificação ao SINAN (Sistema de Informação de Agravos) é obrigatória.
Causa raiz: o que dá errado no PGRSS
Investigação típica revela:
- Caixa amarela cheia além de 2/3 da capacidade.
- Saco mal vedado.
- EPI insuficiente (luva fina sem proteção contra perfuração).
- Treinamento desatualizado.
- Procedimento sem técnica adequada (puxar agulha pela ponta etc).
Ação corretiva: revisão imediata + capacitação + checklist semanal.
Custo do acidente
Direto:
- PEP HIV (28 dias) → R$3-7 mil.
- Acompanhamento sorológico → R$500-1.500.
- Vacinação HBV emergencial → R$300-800.
- Eventual hospitalização → R$5-30 mil.
Indireto:
- Afastamento do funcionário (dias-semanas).
- Investigação CIPA (horas).
- Possível processo trabalhista (R$10-100 mil em precedentes).
Conclusão
Acidente com perfurocortante é evento previsível em estabelecimento de saúde. Protocolo PEP em 2 horas, CAT em 24 horas, acompanhamento até 6 meses. Custo direto e indireto pesado, mas prevenção via PGRSS bem feito + EPI + treinamento reduz incidência em 60-80%.
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